terça-feira, 13 de outubro de 2026

Passos Coelho voltou. E não parece ser por acaso.

 

Passos representa um neoliberalismo de inspiração thatcheriana, assente na redução do papel do Estado, nas privatizações e na confiança quase religiosa no mercado. Ventura acrescenta-lhe um nacionalismo populista, autoritário nos impulsos e profundamente contraditório no discurso económico: proclama a defesa do povo enquanto abraça políticas que podem fragilizar precisamente aqueles que diz representar.
São diferentes na forma, mas encontram-se em aspectos essenciais do projecto político.
Passos não esqueceu 2015. Ganhou as eleições, mas perdeu o Governo porque não conseguiu reunir uma maioria parlamentar. Chamaram-lhe geringonça. Afinal, era simplesmente a democracia a funcionar.
Hoje, perante o crescimento do Chega, parece vislumbrar uma oportunidade para regressar ao poder e concretizar uma agenda que a democracia parlamentar lhe interrompeu. O ir além da troika...
O problema não está na existência de uma maioria de direita. Está na natureza política dessa maioria e nas consequências de uma eventual aproximação entre o neoliberalismo económico e o nacionalismo autoritário.
Importa perguntar quantos eleitores do Chega conhecem verdadeiramente as implicações institucionais da IV República que o partido defende. E quantos compreendem as consequências das alterações constitucionais que propõe.
A indignação é legítima. O protesto também. Mas nenhuma democracia se fortalece quando a esperança política é substituída pela fé num salvador.
Portugal já conheceu suficientemente bem os custos da concentração do poder, do autoritarismo e da submissão dos direitos sociais a uma determinada ideia de ordem.
O Estado social não é um privilégio. É uma conquista democrática. A liberdade não se esgota no mercado. E a democracia não pode ser reduzida a uma simples aritmética parlamentar.
Passos e Ventura podem encontrar conveniências políticas comuns. Isso não significa que representem inevitavelmente o mesmo projecto, mas obriga-nos a olhar para aquilo que os aproxima.
Porque o verdadeiro perigo não é a direita governar. É governar uma direita que, em nome da liberdade económica e da autoridade política, acabe por enfraquecer a liberdade democrática e a justiça social.
Portugal não precisa de salvadores da pátria. Precisa de democracia, responsabilidade e memória histórica.



sexta-feira, 14 de maio de 2021

PRR

A crise social e económica decorrente da pandemia que enfrentamos como comunidade (uns mais que outros), coloca-nos perante desafios e incógnitas tremendas.

Se numa primeira fase as dúvidas se colocavam fundamentalmente em relação aos imprevisíveis efeitos da crise e ao período em que teríamos de conviver com a crise pandémica, hoje as dúvidas que se colocam centram-se particularmente na duração do período de recuperação económica que enfrentaremos, bem como na definição dos adequados mecanismos para a alcançar.

A natureza mundial desta crise conduziu à aprovação por parte da União Europeia de um orçamento e de instrumentos sem precedentes para a enfrentar, numa comunhão oposta à crise existencial que parecia ameaçar o projeto europeu.

Ao contrário do que sucedeu em crises anteriores, as instituições europeias agiram rapidamente, libertando, num primeiro momento, os constrangimentos relativos aos limites orçamentais dos Estados, e, por outro, através do Banco Central Europeu, garantiu o financiamento monetário necessário às economias do espaço europeu. Num segundo momento, o Eurogrupo alcançou um acordo que permitirá a Portugal, entre o Fundo de Recuperação criado para o efeito e o Quadro Financeiro Plurianual, receber cerca de 45 mil milhões de euros a fundo perdido a executar até 2026, podendo ainda recorrer a empréstimos no valor de 10,8 mil milhões de euros do Fundo de Recuperação e Resiliência.

A questão que se colocará a Portugal não é, uma vez mais, a falta de instrumentos financeiros para combater o momento que enfrentamos, mas antes a nossa capacidade como comunidade de construirmos uma visão, um plano estratégico e um eficiente plano de execução desses instrumentos, tais como a requalificação da mão de obra, a capitalização das empresas portuguesas, garantir rendimentos às famílias, aumentar a produtividade, construir um sistema fiscal competitivo no quadro internacional para as empresas e cidadãos e combater o excesso de dependência da nossa economia de dois ou três setores.

O governo tem apostado de forma decisiva em alguns desses setores, inquestionavelmente, muito haverá ainda a fazer.

O combate às desigualdades económicas e sociais crescentes em Portugal também se faz apostando em setores estratégicos do país e que tão bons resultados vinham dando em Portugal. O turismo é um desses setores, e a aposta na TAP é fundamental, como foi quando se reverteu a sua privatização (feita à socapa e em período de transição de governo) em 2015. Ou não fosse a TAP a empresa que mais exporta em Portugal. Dá prejuízo dirão… contabilizem os milhões de passageiros e turistas que traz ou trazia para Portugal, façam uma média de quanto cada um gasta, e depois façam as contas… tenho para mim que uma empresa e um setor estratégico nacional não tem necessariamente que dar lucro.

Também já se percebeu que muita gente (muito longe de ser maioria) não gosta do PS, e principalmente de António Costa, pela ousadia de alargar o arco da governação à sua esquerda, e quiçá ser responsável pelo emergir da extrema direita populista, com o consequente eclipsar do CDS, que por sua vez ganhou uma recente tábua de salvação, numa estranha coligação com o PSD. Com que custos para ambos? Veremos. Nesta conjuntura não se gosta da ministra da Saúde nem da diretora da DGS, não gostam de Cabrita nem de Pedro Nuno Santos. Não se gosta do governo, nem da DGS, nem de nada, ponto. Para eles, façam o que fizerem, ou fazem mal, ou fazem tarde, ou não vão fazer bem… Algumas dessas pessoas vivem numa imensa orfandade política (a ausência do desejado Passos Coelho), ou porque estão insatisfeitas com as lideranças fracas existentes que não chegam a ser alternativa, ou porque Marcelo não lhes trouxe a oposição que nunca poderia ser. Em face da crise gravíssima como a que hoje atravessamos, essas pessoas acabam por ter alguma confiança na experiência e na capacidade de António Costa, mesmo com avanços e recuos, porque ninguém acredita que um governo Rio-Chicão estaria melhor dotado para enfrentar os desafios da pandemia em Portugal.

Também já percebemos, e já aqui o escrevi, que o Plano de Recuperação e Resiliência não chegará ao interior do país como devia, pelo menos para já. Cabe às autarquias descalçar a bota.


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

E porque não com gás?


Comprei e li alguns livros de José Rodrigues Santos, confesso. Três. A escrita ligeira e fluída é fácil de ler, principalmente para quem não tem tempo. Ao estilo de Dan Brown, mas em pior. Muito pior. Porque aos inúmeros compêndios de plágios falhados a Dan Brown, consegue juntar uns toques de concorrente de big brother, se a Cristina Ferreira fosse participante e resolvesse escrever um livro aos berros. Acrescente-se uma pitada de alguma investigação sobre um tema mais ou menos polémico/interessante e temos uma mescla explosiva para um 'best seller'.
Só que Rodrigues dos Santos, impulsionado pelos orgasmos públicos a que nos habituou na apresentação do telejornal quando as notícias são más, principalmente se o governo for de esquerda, resolveu reescrever a história.
O mesmo autor da sopa de peixe com leite de mama de uma sueca, que tentou, escreveu e defendeu a tese de que o fascismo deriva do marxismo, tenta agora passar uma borracha no fascismo nazi, numa espécie de truque mágico.
Numa entrevista à RTP, este aldrabão, charlatão, esteve mais de vinte minutos na televisão do Estado a negar o holocausto. E qual é a forma mais soez de negar o holocausto em 2020 se não deturpá-lo e falseá-lo, descontextualizando-o na sua dimensão humanista, Num atentado ao trabalho de milhares de historiadores sérios que dedicaram e dedicam as suas vidas ao tema.
"A certa altura, há alguém que diz 'Epá, estão nos guetos, estão a morrer de fome… não podemos alimentá-los. Se é para morrer mais vale a pena morrer de forma mais humana. E porque não com gás?'". "Ao décimo cadáver que visse já era normal.' 'Já via um enforcamento a palitar os dentes.'
O ignorante afirma que os nazis só gasearam milhões porque não os podiam alimentar, portanto por humanismo.
Rodrigues dos Santos que afirma que nem Saramago ou Lobo Antunes tiveram coragem para escrever sobre o tema, e que foi necessária alguma maturidade como escritor para se aventar a escrever sobre o tema.
Diz o aldrabão que os nazis tinham 50 campos de concentração (eram mais de 44 000), que “os comunistas fizeram a mesma coisa” mas que nos campos nazis ao menos as crianças até iam à escola, que havia piscinas e bordéis e que os presos se habituavam aquilo, que no fundo 'é quase como quem vai para o trabalho'.
Este é o charlatão de Auschwitz... e se calhar por isso é que acaba a entrevista a tentar justificar porque a história contada tem que superior ao estilo... seja como for, ele é um escritor, de literatura...
E porque não com gás?

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Maradona

O mais genial de todos os tempos. O génio que mais me fez gostar de futebol... com quem aprendi a gostar de futebol, foi hoje sentar-se ao lado dos deuses. A fantasia e o sonho de um puto poder jogar como ele. A felicidade de o ver a dar toques numa bola. A alegria de o ver jogar com a alegria com que jogava. Tenho na memória uma infância/adolescência feliz, também por causa dele. E se me lembro! Que privilégio poder dizer que o vi jogar. Quando se perdem referências, perde-se um pouco de nós, e aquele Maradona foi um pouco de mim e de nós, os que gostam de futebol e não só. E de repente lembro-me de quem via esses jogos comigo. Do meu avô, do meu padrinho e do meu pai. Desses jogos e dessa magia. Lembro-me do Maradona, e de outros, mas sempre do Maradona. 'O futebol é a coisa mais importante dentro daquelas que menos interessam.' Arrigo Sacchi.

Dizem que ninguém ganha jogos sozinho, mas Maradona esteve perto disso. A mão de Deus seguida do golo de todos os golos. O golo do século, dos mundiais, de uma geração. O pé esquerdo de Deus.

A sua vida dava um filme? Vários. Durante a carreira de futebolista e depois dela. Há quem não gostasse, mas só da parte em que punha a boca no trombone. Com drogas ou não. Com álcool ou não. Com Fidel ou na luta contra a corrupção na FIFA. Mais à esquerda como o pé que tinha mais à mão. Imperdoável para os conservadores fofinhos. Imparável fora do campo como dentro dele. Sempre serei Maradona.
Diego não foi um exemplo como homem, viveu nos limites, tal como em cada finta em campo, mas nunca se escondeu, nem foi hipócrita. O jogador do século, com drogas ou máfia, foi aquilo que quis ser... loucos há muitos no futebol, génios não, só há um. Os outros, são os outros, e para mim vêm a seguir.
Percebo algumas piadas dos rapazolas que ainda têm a mania que mandam umas piadas, que ainda acham que mandam umas piadas, mas não entendo... sinceramente... alguns nascem para ser lendas, a maioria nem para uma nota de rodapé.
Até nisso, Maradona continua a ser diferente... ele que sempre foi diferente... melhor...



sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Lava mais branco

O branqueamento do fascismo está em curso. Pior do que isso, é feito por pessoas que não são fascistas, mas que por mero assalto ao poder ou revanchismo ideológico são capazes de normalizar partidos como o Chega.

Há sempre um 'mas'. O que ele disse (Ventura bem entendido), até é racista ou xenófobo, mas... será mesmo necessário facilitar assim tanto? Semana após semana, assiste-se à legitimação do Chega por pessoas de direita que vêm nele uma forma de revanchismo contra o PCP e o Bloco. É por assim dizer, uma nova forma de vingança ideológica. Só que a comparação para além de falsa, é demagógica e ofensiva para a democracia.

Quer historicamente, quer ao nível das propostas, a comparação é disseminada por quem não pode ser honesto intelectualmente.

Da destruição do SNS e da escola pública, ao cerco sanitário a uma etnia, à perseguição a uma minoria religiosa, à reversão da lei do aborto, e a tudo o que já sabemos da visão machista, racista e reacionária que caracteriza o fascismo, até à perseguição aos mais pobres, principalmente os beneficiários de RSI, numa visão redutora e sectária, a castração química de pedófilos e a prisão perpétua, e outras que tais, numa perspetiva de recuos civilizacionais como nunca antes visto, e que qualquer partido da esquerda nunca se atreveu tão pouco, mais ou menos, a propor.

O PSD nos Açores cruzou uma linha vermelha. No resto do país espero que não, se bem que já sabemos onde cairá Rui Rio se disso necessitar. Triste e perigoso porque ajuda a enfraquecer a democracia e mina por dentro o sistema de que estes populistas se aproveitam.


sábado, 7 de novembro de 2020

B(ye)den

Se há boas notícias em 2020, a derrota do populismo delirante, xenófobo e racista é uma delas. A América será 'great again'...

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Stayaway Covid

 

Já sabemos de cor e salteado todas as possíveis contradições existentes nas medidas de combate à pandemia Covid-19.

Também sabemos tudo o que há para saber sobre as regras aplicadas e aplicáveis.

Mas há uma coisa que não sabemos: respeitá-las e acatá-las. Para o bem comum. Criticar sabemos, obedecer nunca.

Porque tudo é fácil, mas aposto que no lugar lá onde eles estão, a infernizar-nos a vida, teríamos com certeza o bom senso e a sabedoria para aplicar medidas bem melhores. Porque nós sabemos tudo o que há para saber sobre a Covid-19. Eles, leigos, não. Ou, porventura, não aplicar nenhuma e dizer à populaça que isto mais não é do que uma gripezinha.

Quanto à mais recente polémica da aplicação 'stayaway covid', mais uma vez a informação, ou neste caso, a falta dela, tem dominado as discussões facebookianas e não só dos peritos em epidemiologia.

Mas vamos por partes. António Costa propôs à AR que aprovasse o uso obrigatório de máscara na rua e a instalação obrigatória nos telemóveis da aplicação 'stayaway covid'. Dito assim, o ditador Costa, foi comparado aos piores sistemas ditatoriais do mundo, essa esquerdalha malvada da China, Cuba, Rússia, Coreia do Norte e Venezuela. Porque, como se sabe, não existem nem nunca existiram ditaduras de direita. E mesmo enviando a proposta à AR, esse espaço ditatorial em qualquer país civilizado que se permita tê-lo como instituição mais ou menos democrática, não se livrará da fama.

Só que é assim? Não, não é bem assim. A proposta refere o uso de máscara obrigatória para pessoas com mais de 10 anos, nos espaços ou vias públicas, e sempre que o distanciamento físico recomendado pela DGS se mostre impraticável. Totalmente de acordo…

Quanto à aplicação, ou a app para os mais modernaços, a proposta é que seja obrigatória a sua instalação em contexto laboral ou equiparado, escolar e académico e por possuidores de equipamento que o permita. Ou seja, não se aplica aos reformados, não se aplica a quem não tenha equipamento compatível, não se aplica a muita gente que se apressou a criticar sem saber do que estava a falar. O normal, portanto.

Outra coisa bem diferente, é saber da constitucionalidade de tal proposta, e refiro-me só à que diz respeito à aplicação, porque quanto ao uso da máscara, tal questão não se põe. O estado de calamidade permite isso, e muito mais.

A instalação da aplicação, mesmo nos casos acima descritos, parece-me inconstitucional, e mais será a sua fiscalização por agentes de autoridade. Por isso, é que Costa se precipitou.

No entanto, muitos dos que se apressam a ir ao facebook dizer umas coisas, deviam estar mais preocupados com as definições de privacidade dessa rede social e de outras, do que com a aplicação 'stayawaycovid'. E já agora, instalá-la se tiverem bom senso. Não devia ser necessário ninguém sugerir a sua obrigatoriedade. Que, repito, é inconstitucional, na minha opinião, mesmo em período de estado de calamidade. 


terça-feira, 29 de setembro de 2020

Chega!

Eles andam por aí, mais do que se imaginaria, agora identificados numa voz pela qual ansiavam e que lhes dá os motivos para espalhar o seu ódio contra o regime. Uma horda boçal que não admite regras nem razões. À míngua de argumentos e conhecimento, arrasam com ignorância tudo e todos, apontando o dedo a qualquer falha do sistema sem nunca terem contribuído com nada que não seja o bota-abaixo.

Mas o Chega e a sua horda combatem-se com a falácia dos seus próprios argumentos, ou da falta deles. É na política do populismo que se apanham as incoerências de quem está disposto a tudo e ao seu contrário para ser eleito e tentar minar por dentro o regime que o elegeu. Se uma das razões do voto é a insegurança social, exibe-se o programa de que o Chega tem agora vergonha, onde se propõe a total privatização do SNS e da Escola Pública, a desregulação laboral e a redução drástica dos impostos para os ricos. O Chega que após ter eleito um deputado andou a apagar e a emendar as incoerências do seu programa eleitoral. Se esse voto é por causa do descrédito da política, confronta-se com a pensão vitalícia que o porta-voz Sousa Lara recebia ou do candidato às europeias que é arguido por alegada burla ao Estado.

Compreender as razões do voto na extrema-direita é um grande passo para a poder combater, não lhe dando, no entanto, o palco que não merece. As razões desse voto são variadas: o processo de globalização que, tendo afastado a matriz social da ação política, expulsou milhões de cidadãos da promessa de oportunidades de progresso; a crise financeira de 2008 com a consequente retirada de poder aos Estados e uma distribuição entre trabalho e capital cada vez mais desigual, o esmagamento das classes médias, sem as quais a extrema-direita historicamente nunca vinga; e uma crise de estadistas que tornou a manipulação muito mais fácil. Estamos a falar de um novo tipo de extrema-direita, que hoje integra a agenda neoliberal da elite económica e a que não é alheia uma comunicação social decadente, feita do jornalismo do imediato e do direto.

Mas, mesmo compreendendo as origens deste voto, a democracia não pode deixar de ser clara nos limites que impõe. As democracias devem ser implacáveis sempre que estas organizações tentem subverter as instituições do Estado, utilizem as forças de segurança como escudo, ou usem, de forma anónima, as redes sociais para espalhar o ódio e a difamação. A democracia e os seus intérpretes não podem ceder à chantagem, populismo e manipulação. Armas de quem se aproveita do desespero e da insatisfação, por vezes legítima, dos cidadãos, e a quem o sistema não consegue dar resposta. Atuando neste domínio, o espaço para a proliferação destes ‘bolsonaros’ fica reduzido. Quanto às redes socias, o espaço é amplo para a libertinagem de expressão, e aí o combate faz-se com desprezo, quase sempre.


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Abril com covid

Tem causado muita polémica a celebração do 25 de Abril pela Assembleia da República. É certo que vivemos tempos excecionais, fruto de uma pandemia que nos tem imposto grandes limitações, nomeadamente em termos de circulação e associação, e que nos obriga a rotinas que não eram de todo as que estávamos habituados.
Mas nunca foi tão importante celebrar o 25 de abril. O símbolo da nossa democracia é o Parlamento e é no 25 de abril que se funda a sua própria legitimidade. Ali se aprovou a Constituição em 1976 e mais recentemente o estado de emergência, o primeiro em democracia. Fazem bem os deputados em não ceder às polémicas do momento, mesmo que fosse esse o caminho mais fácil. Aliás, só 11 deputados votaram contra as celebrações deste ano do 25 de abril, CDS, PAN, IL e CHEGA, e não haja dúvidas, por simples revanchismo e acerto de contas. 
A direita portuguesa, excluindo o PSD, aproveita este tempo de exceção para tentar impedir que o 25 de Abril seja celebrado na Assembleia da República. É uma posição muito fácil de defender perante uma sociedade alarmada. 
O 25 de Abril vai ser celebrado na Assembleia da República, casa da democracia e assim deve ser. O facto é que o Parlamento não suspendeu os trabalhos e tem-se lá reunido todas as semanas para discutir, por exemplo, o estado de emergência. O Parlamento esteve em funcionamento diário, com funcionários, comissões e plenários, durante todo este tempo. Seria estranho que o Parlamento pudesse funcionar todos os dias, como funcionou, e o plenário pudesse reunir para votar várias vezes o estado de emergência, e só não pudesse funcionar no dia 25 de abril. Não se percebe porque poderão haver trabalhos no dia 24 e no dia 25 não, porque não estamos a falar de uma festa. Estamos a falar de trabalho. Teria que fechar obrigatoriamente no 25 de abril quando está aberto nos outros dias todos? Não vai haver a habitual parada militar, não vai haver champanhe, não há desfile, não vai haver almoçarada e com as devidas precauções e com menos gente no hemiciclo (menos de 100 ao contrário das habituais 700), a celebração terá a dignidade que se lhe exige e não contrariará qualquer indicação da DGS. 
Pessoalmente, quero que os meus representantes celebrem condignamente o 25 de abril. Já não concordo com o que os sindicatos estão a preparar para o 1º de maio. Isso sim, é irresponsável, e espero que não seja permitido. 
Não uso de maniqueísmo apelidando de fascista quem não concorde com as celebrações, mas os argumentos atá agora utilizados no meu entender não são válidos. A saber e só para citar os mais utilizados: os funerais têm restrições de pessoas; se um familiar de um deputado falecer, o funeral tem os mesmos constrangimentos que outro qualquer. Não se celebrou a Páscoa como é costume; celebrou-se a Páscoa com as restrições de circulação e em casa de cada um, as celebrações da Páscoa são aos milhares por esse país fora, confundir com uma celebração na casa da democracia é demagógico e sem sentido. É um mau exemplo que se dá ao país; mau exemplo seria suspender a democracia, e esta não está suspensa. O país tem sido responsável, mesmo que se tratasse de um mau exemplo, no que não concedo, as pessoas quebrariam as regras propositadamente pondo em risco a sua saúde, porque os deputados até celebraram o 25 de abril? 
Hoje, mais do que nunca, é importante celebrar abril, porque a liberdade, seja por que circunstância for, nunca pode ser suspensa. 
E celebrar o 25 de abril, é também celebrar o Estado e as suas instituições, a escola pública e o SNS. Os tais que não deviam existir, que tanto são atacados, mas que na hora do aperto é para onde todos se viram. E que grandes trabalhos têm feito.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Por esse rio abaixo

Desde que a crise financeira nos bateu com toda a sua força, a partir de 2010, a maioria dos cidadãos viu os seus rendimentos diminuírem, tanto cá, como na generalidade dos países. Foram cortados salários, pensões e reformas, os impostos aumentaram em catadupa e os serviços públicos viram a sua operacionalidade reduzida e em muitos casos extinguida. Assim o exigiu a política seguida, chamada de austeridade, através da qual se pagou a dívida privada do sistema financeiro em ruínas e os juros galopantes da dívida pública.
A austeridade funciona? Certamente que sim, dependendo dos objetivos, pelo que olhemos para os resultados.
“Mais de 80% da riqueza criada no mundo em 2017 foi parar às mãos dos mais ricos que representam 1% da população mundial, refere um relatório da organização não-governamental Oxfam, (…)
O estudo calculou que a riqueza dos multimilionários aumentou 13% ao ano em média desde 2010, seis vezes mais do que os aumentos dos salários pagos aos trabalhadores (2% ao ano).
Para a organização não-governamental, o crescimento sem precedentes do número de bilionários não é um sinal de uma economia próspera, mas um sintoma de um sistema extremamente problemático, já que mais de metade da população mundial tem um rendimento diário entre 2 e 10 dólares (entre 1,6 euros e 8,1 euros). 
“Enquanto o 1% mais rico ficou com 27% do crescimento do rendimento global entre 1980 e 2016, a metade mais pobre do mundo ficou com 13%”.
Dado que o dinheiro não se evapora, só ficará surpreendido com este resultado quem não quiser ver. A austeridade funcionou muito bem como forma de concentrar a riqueza num grupo muito restrito.
Na corrida para a liderança do PSD, houve uma discussão sobre “ideologia” que me pareceu colocada em termos equivocados. Parece que há quem ache que o PSD deve voltar a ser “social-democrata”.
Ninguém duvida de que o PSD, com Passos Coelho na liderança, foi diferente (mais à direita) do PSD tradicional. Mas nunca no seu passado o PSD foi social-democrata, não o foi com certeza nas épocas de Cavaco Silva e Durão Barroso, tirando talvez na época de Sá Carneiro, em que o então PPD/PSD tinha nascido com uma matriz de esquerda. 
O partido que em Portugal tem aplicado políticas social-democratas é o PS. Social-democracia é centro-esquerda, coisa que o PSD nunca foi. Durante a liderança de Passos tivemos uma direita assumida e orgulhosa de o ser. Todas as medidas que marcaram o seu mandato tinham um propósito ideológico: diminuir drasticamente a presença do Estado na sociedade portuguesa, através de privatizações e cortes. A arma era a austeridade que tão bom resultado deu, como se viu acima, e como por estes dias se comprova o seu contrário.
O que causa a diferença entre o PSD de Passos e o PSD a que estávamos habituados não é a falta de ideologia – é talvez o excesso, e de que Rio é um claro apoiante. O PSD tem de decidir se quer mais ou menos ideologia, mas se optar por mais ideologia não será com certeza para ser parecido com o PS. Aliás, aquilo de que me lembro de Rui Rio como autarca, era o seu autoritarismo e desprezo por tudo o que fosse mundano e das artes. Lembro-me da quase venda do Coliseu do Porto à IURD, sim essa que alegadamente terá ‘desviado’ umas criancinhas.


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Sem diálogo, só censura


Quando a democracia amolece, e surgem alguns focos de corrupção, o caminho está aberto para a proliferação dos populismos. Os populistas usam o medo, exploram o ódio e as notícias falsas (‘fake news’) para os seus fins eleitoralistas e têm nas redes sociais um amplo campo de divulgação, bem assim como nos jornalistas avençados protegidos por editores e proprietários cujo único objetivo é o lucro e não dar notícias. Constroem uma narrativa anti-sistema apoiada num discurso intolerante e nacionalista, aproveitando momentos de fragilidade social nos respetivos países. E, muitas vezes sendo estranhos à política, dela se servem para apregoar que dela nunca viveram. Esquecendo-se que provêm da sociedade civil, tal como os políticos. A crise de valores está no seu apogeu, e cresceu com os devaneios do neoliberalismo desregulado. O sentimento de injustiça de lá para cá aumentou quando chamaram muitos a pagar a ganância de uns poucos. Com o aumento das desigualdades e do desemprego que a crise gerou, aliadas à moratória de ataque aos próprios estados soberanos instalou-se nos povos um profundo sentimento de insegurança, injustiça e impotência. Quando os líderes entregaram aos especuladores a iniciativa de ‘castigar’ os estados e as pessoas pelos erros que aqueles tinham cometido e pelo visto continuam a cometer, o espartilho apertou-se ainda mais.
As falsas promessas dizem ao povo o que ele quer ouvir, mesmo que o que se diga seja xenófobo, racista e intolerante. Assim é com Trump, que apesar de populista e extremista ainda não é um ditador. Assim é com Bolsonaro, que ainda não sabemos se o irá ser, apesar de o ter dito. O voto do Brasil não foi em Bolsonaro na sua maioria, foi, com a ajuda das ‘fake news’ pagas por elitistas que se movem no desprezo pela ética, um voto contra o sistema e contra o PT de Haddad. Votar contra e não a favor é sempre um exercício perigoso e espero que os brasileiros não se venham a arrepender.
Mas que não restem dúvidas, se a opção é por uma democracia com mais ou menos defeitos, mas democracia, ou por um laivo sequer de uma possível ditadura fascista, a minha caneta estará sempre do lado da democracia, combatendo seja quem for que pense o contrário. E não, não é tolerável que se aceite quem pense o contrário, apesar de o poderem fazer, como só o pode fazer quem vive em democracia.
Venham de onde vierem, da Venezuela, do Brasil, da Turquia ou da Coreia do Norte. Não há diálogo possível com extremistas, ditadores, xenófobos ou racistas. Mas deve haver combate onde os próprios falham. Na discussão da falácia dos seus argumentos. Sem medo ou hesitação, porque há por aí muitos ‘bolsonaros’ saudosistas e conservadores que à míngua de conhecimentos valorizam a sua percepção e ignoram os factos.


Publicado in "A Voz de Chaves", em 15 de novembro de 2018

sexta-feira, 13 de julho de 2018

A maior das celebrações


No passado fim-de-semana Chaves celebrou mais um dia da cidade. Com eventos, concertos e animação como não se via há muito tempo.
Mas, o maior dos eventos ocorreu mesmo na tarde de domingo, dia da cidade. E traduziu-se na assinatura do protocolo/contrato-promessa de cedência das instalações da Escola Superior de Enfermagem de Chaves à Cruz Vermelha Portuguesa.
A Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa (ESSCVP) integrada no Ensino Superior Politécnico desenvolve a sua atividade no âmbito do ensino superior da saúde e permitirá criar em Chaves uma verdadeira escola superior de saúde, com a certeza de que já no próximo ano abrirão mais cursos para técnicos de saúde em imagiologia, radioterapia e fisioterapia.
A Cruz Vermelha Portuguesa administra ensino superior há cem anos e tem em Lisboa e Oliveira de Azeméis duas escolas superiores de saúde de excelência, do melhor que há no país. A possibilidade, agora real, de haver em Chaves uma escola superior de saúde do mesmo nível é motivo para que o dia da cidade do passado domingo possa ser celebrado nos próximos anos.
Ao mesmo tempo resolvem-se os problemas de cariz pedagógico e de funcionamento respeitantes às dificuldades financeiras da atual Escola de Enfermagem.
A cooperação com a Cruz Vermelha Espanhola permitirá ainda promover a frequência de estudantes da nossa vizinha Galiza, com creditação de todos os cursos nos dois lados da fronteira.
A solução encontrada pelo executivo municipal, integrando a Escola Superior de Enfermagem de Chaves na rede nacional de escolas superiores de saúde da Cruz Vermelha Portuguesa é a melhor e maior notícia para o concelho de Chaves e para o Alto Tâmega dos últimos anos, com a ambição de em quatro anos termos em Chaves 1500 alunos no novo pólo de saúde que será criado aqui. 1500 alunos no ensino superior em Chaves é uma pedrada no charco, é sem dúvida acordar Chaves. Até parece mentira…
Chaves terá ensino superior de qualidade e em quantidade, fixando população jovem e dando-lhe condições para em parceria com o Centro Hospitalar e as Termas aqui permanecerem. É um avanço estratégico sem precedentes para o concelho, cujos frutos serão colhidos a breve trecho.
É assim que se governa em prol do interior e das suas populações, é assim que se combate o problema da demografia ou da falta dela como é o caso, e é assim que com tempo se irão resolvendo outros problemas… Outras boas notícias se seguirão em breve. Com tempo… ninguém corre em oito meses depois de um coma de dezasseis anos… é necessária muita fisioterapia.

Publicado in "A Voz de Chaves", em 12 de julho de 2018



quinta-feira, 5 de abril de 2018

O esgoto do mundo


O atual momento da guerra na Síria revela perigos que não devem ser ignorados. Após sete anos de conflito, assiste-se a um novo agravamento da violência.
O conflito que há muito deixou de ser uma guerra civil entre o regime de Bashar al-Assad (um dos maiores genocidas da história recente) e os múltiplos movimentos de oposição transformou-se numa luta pela afirmação de interesses e influência de atores externos: da Rússia aos Estados Unidos, passando pelo Irão, Turquia, Israel e Estados do Golfo.
Significa que estamos perante múltiplos conflitos, em paralelo, no mesmo cenário de guerra, e que encontra na Síria atual um ambiente propício para o confronto. Ignorar esta complexa realidade impede soluções e promove uma fundada inquietação quanto ao futuro próximo.
A passividade perante a tragédia humanitária na Síria enche de vergonha o mundo inteiro. De acordo com a ONU, desde o início do conflito, em Março de 2011, calculam-se mais de 250 mil mortos, 5.,5 milhões de refugiados, 6,1 milhões de deslocados internos e 13,1 milhões de pessoas a necessitar de ajuda humanitária. Em Ghouta, as ações militares das últimas semanas provocaram centenas de mortos, entre os quais dezenas de crianças, e um cerco à cidade que resulta em escassez extrema de alimentos e medicação, deixando ao abandono milhares de feridos.
Chocam as imagens de destruição. A resposta internacional foi a adoção de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que exigia um cessar de hostilidades por 30 dias e uma “pausa humanitária” que permitisse a entrada de ajuda e evacuações médicas. Em Ghouta, continuaram os ataques e cresceu o número de vítimas. As reiteradas violações de resoluções do Conselho de Segurança da ONU leva a questionar para que serve, quando todos os envolvidos têm responsabilidade direta nessas violações. Aprovam a resolução e são os próprios que não a respeitam. Fracassadas as iniciativas diplomáticas, escasseiam soluções. Os Estados Unidos reduzem-se a posições de condenação, consideram responsabilidade russa controlar o regime de Damasco e avaliam novas soluções militares. Com Trump nada é certo e a qualquer momento, como se viu recentemente, pode dar uma cambalhota de 180 graus.
O impasse na Síria resulta da passividade e apatia internacional, mas também da banalização de uma violência que diariamente inunda os cidadãos, tornando a exceção uma regra. A inação face à tragédia na Síria não é apenas um problema no Médio Oriente, é um sinal de alerta para as sociedades liberais, defensoras dos direitos e da dignidade humana.
O cocktail explosivo que sempre foi o Médio Oriente, com particular enfoque em Israel e agora na Síria, a que se soma a política de cambalhota de Trump e Putin, mais os ódios religiosos, tornam o conflito sírio uma bomba relógio que poderá tomar proporções catastróficas.
À míngua de líderes na Europa capazes de ter uma voz ativa, o que nos entra pela casa adentro é a visão perturbadora de crianças desamparadas pela fome e pela guerra, cobertas de sangue inocente. A impotência de uma Europa que não sabe o que quer e assiste a tudo com a ligeireza meteorológica batizada com um nome qualquer.
O que se pode fazer é a pergunta que se impõe. Em primeiro lugar dizer a verdade e transmiti-la. Lutar contra a propaganda que retrata os civis sírios como terroristas legitimando assim as suas mortes. Espalhar que o regime ditatorial de Assad assassinou milhares de crianças com recurso a armas químicas. Denunciar os seus crimes contra a Humanidade. Denunciar os interesses estratégicos e geopolíticos das potências mundiais e regionais envolvidas, ignorando sempre as vítimas e a ajuda humanitária.
Mas sobretudo, o que podemos fazer é acolher e ajudar os refugiados a sentirem-se bem-vindos e apontar o dedo aos xenófobos mesquinhos que usam expressões como ‘não quero cá terroristas’, ou ‘ vão roubar os empregos’.
O que pode fazer o governo? Denunciar o regime sírio ao Tribunal Penal Internacional. Fazer lobby na UE para aumentar a pressão e as sanções à Rússia e ao Irão. Reforçar de uma vez por todas o seu compromisso com os refugiados. Fazer-se ouvir nas várias plataformas internacionais a que pertence, UE, NATO, ONU…
                E porquê? Porque intervir para salvar vidas de civis não é apenas uma responsabilidade humanitária mas uma obrigação moral.


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A areia e o mar

Quando existe falta de bom senso, a probabilidade de fazer asneira é grande. O jantar da Web Summit no Panteão nacional é um bom exemplo disso. Várias questões se levantam, nomeadamente se fará algum sentido a cedência de espaços públicos para a realização de festas privadas? Talvez, dependendo do sítio e numa lógica de rentabilização desse espaço, alocando as possíveis receitas para fazer face às despesas de manutenção. No caso do Panteão, o anterior secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, veio dizer que o diploma aprovado pelo governo anterior, e que regula este tipo de casos, não autoriza de cruz todos os pedidos, terá que ser feita uma avaliação caso a caso. O Instituto Geral do Património despachou de cruz até porque já se tinham feito outras festas antes. O ministro da Cultura e o primeiro-ministro não sabiam. Mas com bom senso, lá está, a festa poderia ter sido feita noutro sítio. Até porque, para lá do bom senso há uma questão de mau gosto. Não faz sentido fazer uma festa com dezenas de mortos à volta, mesmo que as zonas dos túmulos estivessem fechadas.
Fazer disto uma batalha política, não é falta de bom senso, é simplesmente estúpido. O diploma foi feito pelo anterior governo, e durante a sua legislatura houve vários eventos em espaços históricos e assim continuou nesta porque a legislação assim o permite. Barreto Xavier queria que se usasse o Panteão Nacional para jantares, prevendo a cobrança de pelo menos três mil euros, como está expresso no seu despacho. O erro da diretora do Panteão e da DGCP foi cumprirem esse regulamento, o do atual ministro foi não o rever. Mas os últimos a poderem apontar o dedo a alguém são exatamente as virgens ofendidas que fizeram e aprovaram estas regras.
Ainda na semana transacta, Portugal emitiu €1,25 mil milhões em títulos de dívida a 10 anos à taxa de juro mais baixa de sempre da sua história para um período tão longo (1,939%). É um resultado estrondoso, que tem por trás a expectativa de que a Fitch vai elevar o rating de Portugal a 15 de dezembro e que a Moody’s fará o mesmo no início de 2018, a par da evolução positiva de vários indicadores económicos (PIB, défice, dívida, emprego, desemprego, exportações, turismo). O desemprego, por exemplo, caiu para 8,5%, o valor mais baixo desde 2008, estando já abaixo do valor que o Governo prevê para o próximo ano. O défice ficará em 1,4%, mais um marco histórico. O PIB crescerá este ano 2,6%. A dívida pública terá o maior decréscimo de sempre. Um mar de razões para uma visão futura optimista.
A conclusão só pode ser uma: os mercados e as agências de rating estão a validar a política económica e orçamental do país. O resto é areia.

Publicado in "A Voz de Chaves", 16 de novembro de 2017

segunda-feira, 15 de maio de 2017

De 13 a 15 de Maio

13 de Maio, o Papa Francisco, o mais liberal dos Papas, visita Fátima nas celebrações dos 100 anos das alegadas aparições de Nossa Senhora. Respeito quem acredita, mas eu não acredito por variadas razões que agora não vêm ao caso. Ou não acreditava, até no mesmo dia o Salvador ter ganho o festival da Eurovisão. Um verdadeiro milagre...
E, eis que, dia 15 de Maio, o PIB português cresce 2,8% no primeiro trimestre, esmagando por KO a narrativa de Passos Coelho e de Cristas, essa que agora quer assinar de cruz, como tão bem sabe, mais 20 estações de metro em Lisboa, sem saber como, quanto custa e porquê.
Os milagres só existem para quem não sabe o que é talento, compromisso e competência. Tanto o Salvador como o António Costa sabem que o seu sucesso, e por conseguinte o do país, é fruto do seu trabalho competente...