Passos representa um neoliberalismo de inspiração thatcheriana, assente na redução do papel do Estado, nas privatizações e na confiança quase religiosa no mercado. Ventura acrescenta-lhe um nacionalismo populista, autoritário nos impulsos e profundamente contraditório no discurso económico: proclama a defesa do povo enquanto abraça políticas que podem fragilizar precisamente aqueles que diz representar.
São diferentes na forma, mas encontram-se em aspectos essenciais do projecto político.
Passos não esqueceu 2015. Ganhou as eleições, mas perdeu o Governo porque não conseguiu reunir uma maioria parlamentar. Chamaram-lhe geringonça. Afinal, era simplesmente a democracia a funcionar.
Hoje, perante o crescimento do Chega, parece vislumbrar uma oportunidade para regressar ao poder e concretizar uma agenda que a democracia parlamentar lhe interrompeu. O ir além da troika...
O problema não está na existência de uma maioria de direita. Está na natureza política dessa maioria e nas consequências de uma eventual aproximação entre o neoliberalismo económico e o nacionalismo autoritário.
Importa perguntar quantos eleitores do Chega conhecem verdadeiramente as implicações institucionais da IV República que o partido defende. E quantos compreendem as consequências das alterações constitucionais que propõe.
A indignação é legítima. O protesto também. Mas nenhuma democracia se fortalece quando a esperança política é substituída pela fé num salvador.
Portugal já conheceu suficientemente bem os custos da concentração do poder, do autoritarismo e da submissão dos direitos sociais a uma determinada ideia de ordem.
O Estado social não é um privilégio. É uma conquista democrática. A liberdade não se esgota no mercado. E a democracia não pode ser reduzida a uma simples aritmética parlamentar.
Passos e Ventura podem encontrar conveniências políticas comuns. Isso não significa que representem inevitavelmente o mesmo projecto, mas obriga-nos a olhar para aquilo que os aproxima.
Porque o verdadeiro perigo não é a direita governar. É governar uma direita que, em nome da liberdade económica e da autoridade política, acabe por enfraquecer a liberdade democrática e a justiça social.
Portugal não precisa de salvadores da pátria. Precisa de democracia, responsabilidade e memória histórica.

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