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terça-feira, 1 de maio de 2012

Os doze dias de Maio

Após ter alcançado um acordo de concertação social com a UGT, e disso se ter vangloriado por essa Europa fora, e no qual se prevê, entre outras coisas, a diminuição da indemnização por despedimento, de 30 para 20 dias por ano de trabalho, o governo decide agora, dois meses depois!, propôr que essa indemnização passe a ser agora de apenas 12 dias por ano de trabalho. Só dois meses depois...
Vítor Gaspar, que disse no Parlamento, que 2014 era o ano imediatamente a seguir a 2013, para justificar o 'lapso' do corte dos subsídios não ser apenas para os anos de 2012 e 2013, ao contrário do dito à saciedade por vários membros do governo, vem agora dizer que os subsídios só serão repostos integralmente em 2018. Ora, 2018, é o ano imediatamente a seguir a 2017, que por sua vez se segue a 2016 e vem depois de 2015, ano de eleições legislativas que poderá baralhar as contas de Gaspar, outra vez...
O 1º de Maio faz cada vez mais sentido, não só no dia de hoje, como em todos os dias do ano... Antes que se esqueça que existem trabalhadores... Nunca tantos direitos foram tão rapidamente perdidos. Direitos que custaram gerações a ser adquiridos.

Passos Coelho, vai levar a Bruxelas o Documento de Estratégia Orçamental, que é, entre outras coisas, um preparativo do Orçamento de 2013. À semelhança da nova Lei dos Compromissos para as Autarquias, este DEO, ao prevêr despesas plurianuais, uma vez que se aplica até 2016, deveria ser apresentado ao Parlamento e negociado com a oposição, pois, mesmo que se garanta que não é um novo PEC, é disso, precisamente que se trata. Até porque, este governo pode sair de cena nas legislativas de 2015, e o novo governo que possa sair dessas eleições não foi tido nem achado acerca das medidas que possa ter que cumprir em 2016. Esta política de capote é a matriz deste governo. Lembro, que em 2011, foi este argumento (do PEC 4, na altura, não ter sido apresentado e/ou negociado) que o PSD utilizou para derrubar o governo (o outro argumento foi, pasmem-se, pois claro, o excesso de austeridade!!). Apesar de esse PEC de então ter sido elogiado por toda a gente, Merkel incluída.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Hoje não estou interessado

Hoje não me interessa o fim das 'golden shares' na PT, na EDP e na GALP Energia, não me interessa a desistência de Nobre e o seu fraco carácter, não me interessa o assessor de Passos Coelho que lhe chamou 'alforreca', não me interessa a desnomeação de Bairrão para Secretário de Estado por pressão, imagine-se, de Manuela Moura Guedes, também não me interessa o timing do fim dos Governos Civis, deixando ao abandono a protecção civil, a segurança rodoviária e a coordenação dos bombeiros em época de incêndios...
Não me interessa se os juros já subiram mais de 60% desde que caiu o governo socrático, contra todas as previsões, já não me interessa o famoso chumbo do PEC IV porque não havia crise internacional que justificasse mais medidas de austeridade, não interessa que agora tudo e todos aceitem na pacatez saloia toda e qualquer medida porque é necessário combater a mesma crise que há 3 meses não existia... não me interessa se Passos Coelho há 1 ano pedia desculpas públicas por ajudar a subir impostos, aceitando viabilizar o PEC 3, e agora dá uma machadada no Natal de muitos portugueses... que o que dantes não era desculpa para nada, agora serve para tudo justificar.
Não me interessa que João Jardim continue a gastar à grande e à francesa, com olho nas eleições regionais de Outubro e com o beneplácito de todos, PM incluído que nada tem previsto no programa de Governo, mas que pode não significar nada como já se viu. Não quero saber de privatizações a preço de saldo, das empresas do Estado, as que dão lucro e as que não dão, sem qualquer critério, sem qualquer estratégia, das liberalizações no trabalho e do despedimento, da supremacia liberal do capital sobre o trabalho e das concessões aos privados de tudo o que é sector fundamental do Estado. Não quero saber da Europa, e da Grécia, berço da democracia e do conhecimento e da civilização europeia, presa por culpa própria e amordaçada pelos seus próprios irmãos.
Não me interessa se a alienação da REN e das Águas de Portugal, monopólios naturais, é um crime público, lesa país. Não me interessa se a descida da TSU não traga qualquer benefício concorrencial, mas sim poupança para os patrões, que irá ser paga pelos contribuintes com o aumento do IVA. Não me interessa mas preocupa-me muito...

Hoje interessa-me perguntar se irá adiantar de alguma coisa todo este aperto, sem investimento nem poupança, com a mais que certa recessão, aumento do desemprego e de carenciados e indigentes.
Quero saber do Portugal dos pequeninos, do Sol e do Mar, de épicas aventuras que já não lembram a ninguém, e de um país triste que teve que vender a sua própria independência para pagar as dívidas que se impôs a si próprio, e as que lhe foram impostas.
Hoje não quero saber se a culpa é nossa, do Sócrates ou da crise internacional e dos seus mafiosos usurários, pedintes sem nome, piratas sem bandeira.
Quero saber das pessoas, que andam na rua, no desemprego, e que têm fome, que não têm quem as defenda, que são atropeladas por todos, que são injustiçadas, que não têm culpa, e que trabalharam 40 anos de sol a sol para receberem uma pensão de 200 euros.
Chega de chulos, chega de aldrabões, chega de corruptos, chega de mafiosos, chega de tráfico de influências, chega de favores, chega...
Um dia destes vou para a rua gritar, sem medo das consequências... mas não quero ir sozinho...

terça-feira, 7 de junho de 2011

Um memorando à medida

O Povo votou em massa no memorando da Troika (porque é esse que tem que ser executado), e mesmo à medida do programa do PSD, como o próprio Passos Coelho referiu. E bem. Se há coisa de que não se pode acusar o novo Primeiro-Ministro é de esconder o jogo, portanto, quem votou nele não poderá queixar-se mais tarde de ter sido enganado.
E Passos Coelho já avisou que o programa da Troika é curto (!) e o novo governo quer ir mais além. Desde as privatizações mais díspares e disparatadas como as Águas de Portugal, a RTP, a CGD, a REN, aos cortes de um terço no financiamento da saúde e na educação (pondo em causa o SNS, a Escola Pública e o próprio Estado Social - são milhões em caixa se os privados lhes puderem deitar uma mãozinha), desviando assim fundos para a recapitalização da banca, a drástica redução da taxa social única, destruindo a sustentabilidade da Segurança Social e o consequente aumento do IVA, até à redução dos salários e ao despedimento facilitado, tudo isto é o que aí vem - memorando da Troika mais programa do PSD. Não é de estranhar pois, o apoio em plena campanha do 'mecenas' Belmiro de Azevedo. Aliás, e uma vez mais afirmo, honra lhe seja feita, Passos Coelho não escondeu nada, muito do que está no seu programa, estava na sua proposta de revisão constitucional. Tenho pena que a campanha não esclarecesse nem discutisse nada disto. Foi contra isto que lutei, do alto da minha insignificância. Resta um consolo: a Constituição só pode ser alterada com dois terços de maioria no Parlamento.

Não há dúvida que estas eleições foram principalmente contra Sócrates. Eu compreendo, ele foi o rosto das dificuldades económicas e do pedido de ajuda externa... Aliás, nunca vi tanta gente desesperada, chegando mesmo ao insulto fácil, quando as sondagens davam um empate técnico entre PS e PSD, sem qualquer pudor ou respeito por opiniões alheias. Devo dizer que este novo tipo de sondagem diária foi fundamental na vitória do PSD. O voto contra Sócrates, transformou-se em voto útil no PSD. A viragem à esquerda do PS, em resposta à ultra liberal do PSD, capitalizou votos do suicida BE, o centro não estava ocupado por ninguém, o que não se via desde os tempos do PREC, e as massas que geralmente deambulam nesse espaço preferiram livrar-se de Sócrates.
Sócrates que cometeu um enorme erro, do discurso determinado, evoluiu para o determinista e irrealista, e daí para a teimosia. Foi enganado por Passos Coelho, que mentiu aquando do chumbo do PEC IV. Passos disse que iria chumbar o PEC IV porque não tinha sido informado de nada. Soube-se mais tarde que se reuniu com Sócrates no dia anterior... Passos tirou-lhe o tapete e Cavaco deu-lhe o último empurrão. Demitiu-se no passado domingo, num discurso sério e dignificante, para ele e para a democracia em Portugal. A história se encarregará de o julgar.

Estou muito curioso e apreensivo com o que aí vem, ao contrário dos apaniguados de Passos Coelho, que no dia das eleições diziam á boca cheia que no dia a seguir tudo iria ser melhor. Como se o FMI já cá não estivesse.
Ainda assim, desejo sorte a Passos Coelho, pelo bem do meu país.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Vamos à bola

Bom tempo para a prática do futebol. Estádio bonito, com capacidade para 10 milhões de espectadores, mas que por esta altura deve rondar os 50% da sua capacidade total. Era esperada mais gente para assistir a este grande clássico do futebol português. De um lado o PS, de Sócrates, o capitão de equipa e organizador de todo o jogo socialista. Do outro lado, a oposição, sem grandes estrelas, mas uma equipa coesa e unida.
A equipa de arbitragem veio da Alemanha, liderada pela Sra. Merkel, os fiscais de linha, FMI e BCE, e o quarto árbitro é a CE. Ambos os treinadores se cumprimentam, Mário Soares pelo PS, sempre interventivo, mas que tem averbado algumas derrotas ultimamente. O treinador da oposição, Cavaco Silva, já leva alguns anos no cargo, disciplinador e raramente contestado.
As principais ausências: de um lado Manuel Alegre, expulso no último jogo e a cumprir castigo. Do outro Manuela Ferreira Leite, que se lesionou gravemente há já um ano e que falha o resto da temporada. A surpresa surge do lado da oposição, Fernando Nobre, contratação de última hora, surge a titular no lugar do central António Capucho, relegado para o banco.
Este é o jogo do tudo ou nada, com um grau de risco muito elevado, em especial pela troca de palavras mais azedas trocadas nos últimos dias, pelos dirigentes de ambas as equipas.
E aí está, começa o jogo. Miguel Relvas, leva a bola pela estrema esquerda, passa para Louçã, que tenta driblar Sócrates que lhe sai ao caminho... uma primeira finta, e é rasteirado por Sócrates... grande confusão agora, com ambos a trocar argumentos e empurrões. E atenção, Louçã agride Sócrates com uma censura, e a juiz da partida expulsa Louçã com vermelho directo. A oposição fica agora reduzida a dez elementos, mesmo no princípio do jogo. Mário Soares e todo o banco socialista a gesticular, e Cavaco, sempre impávido e sereno ainda não se levantou.
Primeiro quarto de hora de jogo cumprido, e ainda ninguém fez qualquer remate à baliza adversária, aliás Passos Coelho já perdeu três vezes a bola e é sempre apanhado em fora de jogo.
Portas conduz a bola pela extrema direita, com um passe longo, cruza para a extrema esquerda onde Jerónimo aparece, e de cabeça põe a bola à mercê de Passos Coelho, que se isola em frente à baliza, grande perigo, Passos Coelho remata e...gooooolo! Mas, atenção, o fiscal de linha BCE, invalida o golo, diz que Passos Coelho controlou o PEC com a mão, Passos Coelho protesta, mas Merkel confirma a anulação do golo.
O jogo socialista está muito amarrado no meio campo, muito por culpa do jogo táctico da oposição, não deixando Sócrates controlar o jogo.
Começa a segunda parte, e surpresa na equipa socialista, Sócrates ficou nas cabinas ao intervalo, substituído por Francisco Assis. O jogo socialista está agora mais solto, mas continua sem criar grandes oportunidades de golo.
Setenta minutos de jogo, e a assistência começa a abandonar o estádio. Está um jogo desinteressante, muito faltoso, com Merkel a ter que mostrar muitos amarelos. Aliás, Fernando Nobre, até aqui sem qualquer amarelo na Liga, também já viu um amarelo, por gestos agressivos em direcção ao público.
Final do jogo, com um empate a zero, sem dúvida o pior clássico dos últimos anos, com a equipa de arbitragem a ser obrigada a muita intervenção, para parar o jogo sujo e faltoso de ambas as equipas, sem grande sentido de responsabilidade e de oportunidades criadas. Destaque pela negativa para o jogo pobre de Sócrates, excelente jogador, mas hoje muito criticado pelo público, e também Passos Coelho que não soube agarrar a titularidade, caindo sempre no fora de jogo, e com o lugar em risco.
Cavaco não faz comentários como habitualmente, e Mário Soares a dizer que foi mais uma oportunidade desperdiçada.
Dia 5 de Junho temos novo clássico, onde se espera um jogo muito melhor, mas que se prevê com pouca adesão do público e que a Liga ainda não se decida nesse jogo. Para infortúnio dos espectadores...

quinta-feira, 31 de março de 2011

'As armas e os barões assinalados'

As armas e os barões são hoje diferentes dos cantados por Camões no seu tempo. Aqui fica uma análise ao governo Sócrates, bem ou mal, por acção ou omissão, certo contudo de que existiram dois momentos, antes de 2008 e após 2008. Ou seja, antes da crise internacional e depois dela...

Uma pequena nota porém, para os mais distraídos; se não havia coligação negativa quando os partidos da oposição a uma só voz chumbaram o PEC IV, que vai ser aplicado na mesma e até reforçado, Passos Coelho dixit (inclusivamente com aumento de IVA, o mais cego de todos os impostos e privatização, imagine-se, da CGD), esta semana voltaram a unir-se, depois de Sócrates se ter demitido, para anular a avaliação dos professores. Espero que, tal não signifique que os professores não vão ser avaliados tout-court, espero que pelo menos não surja essa tentação populista, assim como esta foi em vésperas de eleições...os mesmos professores que recebem 5 euros por cada exame que corrigem. Já agora, que recebam os bombeiros 10 euros por cada fogo que apaguem, e os juízes 20 euros por cada processo que julguem...

Antes da crise havia 420.000 desempregados em 2005, os mesmos que em 2008, depois da crise o número passou para 600.000; antes da crise o barril do petróleo custava 70 dólares, depois da crise custa quase o dobro; antes da crise a dívida pública em percentagem do PIB era de 64%, depois da crise é de 82%; antes da crise o défice orçamental foi reduzido de 5% para 2,6% entre 2005 e 2008, dentro do Pacto de Estabilidade e Crescimento Europeu, depois da crise estará nos 7%, e até já esteve nos 9,4%.

 + do governo de Sócrates:
  •  Reforma do Estado (PRACE - Programa de Restruturação da Administração Central do Estado);
  • Aposta nas renováveis (construção de barragens, eólicas e centrais fotovoltaicas - top 5 mundial);
  • Reforma da Segurança Social (introdução do factor de sustentabilidade associado à longevidade, o que garante pensões e reformas até à década de 2030 pelo menos);
  • Criação das Unidades de Saúde Familiar (deu a mais 450.000 portugueses um médico de família);
  • Lei da Igualdade;
  • Simplex (avanço geracional);
  • Fim da Alta Autoridade para a Comunicação Social;
  • Cimeira da Nato e eleição para o seu Conselho de Segurança;
  • Reforma da Estrutura Superior das Forças Armadas;
  • Reorganização territorial (bombeiros e protecção civil ganharam comando único);
  • Cursos profissionais (de quase inexistentes passaram a estar em quase em todas as escolas);
  • Reforma da organização dos Tribunais e sua informatização;
  • Mais 2.500 km em AutoEstradas, IP's e IC's;
  • Aumento em 110 euros do salário mínimo nacional;
  • Diminuição de 50.000 funcionários públicos;
  • Investimento em ciência (superou Espanha e Itália, entre outros);
  • Programa de regadio do Alqueva;
  • Inflação desceu de 2,3% para 1,4%;
  • Rede escolar melhorada e optimizada.

 - do governo de Sócrates:


  • Processos e suspeitas de Sócrates (algumas injustas mas com grande impacto na sua imagem);
  • Demora em admitir a derrapagem do défice de 2009;
  • Aumento das tarifas de electricidade, gás natural e combustíveis;
  • Aumento do desemprego em 4 pontos percentuais;
  • Cortes nos apoios a medicamentos, transportes e exames;
  • Gastos do SNS;
  • Cartão do cidadão com impacto em eleições;
  • Condicionamento dos media (algum merecido, lembrando aqui a desbocada M. Moura Guedes);
  •  Lei eleitoral autárquica e do parlamento por fazer;
  • Blindados para a cimeira da Nato;
  • Má gerência dos dossiês do TGV, novo aeroporto e avaliação de professores;
  • Más relações entre política e justiça;
  • Má gestão do PRODER (fraco aproveitamento do Programa de Desenvolvimento Rural);
  • Subserviência aos grandes grupos económicos.

A crise internacional não explica tudo, mas é difícil não ver que há um antes e um depois de 2008. E haverá um antes e um depois de Março de 2011, para pior, e a culpa não será de Sócrates. Houve realmente uma coligação negativa, basta ver e ouvir o que diz e propõe Passos Coelho e o que não diz Cavaco Silva. Para mal do país.

PS- Ninguém se indigna quando uma qualquer agência de rating 'ameaça' Portugal? As mesmas agências que sobrevalorizaram 'lixo', como elas gostam de dizer, em nome dos juros e dos lucros dos seus clientes, e que estiveram na origem da crise do subprime americano e de toda a crise internacional. A UE não põe travão nisto de uma vez por todas e define ela própria em que moldes e por que regras se regerá a ajuda externa? Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia não se unem contra a especulação? Talvez alguém não queira...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Inside Job - ou como a bomba nos explodiu nas mãos

Finalmente! Caiu o papão... o animal feroz, o mentiroso! Aleluia! Até que enfim, vem aí o FMI, por culpa dele claro, e eleições que já tinha saudades, por culpa dele, claro. Vem aí um governo diferente, que vai aplicar com orgulho as medidas de Merkel, que vai acabar com a justa causa de despedimento, que vai pôr toda a gente a recibos verdes, que vai recuar 30 anos nas leis laborais, que vai despedir 20.000 funcionários públicos, a mando do FMI claro, que vai cortar entre 10% a 20% nos salários, a mando do FMI obviamente, que vai pôr o país na ordem, que eles é que são bons, e com a crise podem eles, que os outros é que tiveram culpa da maior crise desde 1929, agora é que vai ser...explodiu a bomba e o país fica para depois.

Eis o que vi e ouvi no dia de ontem...demissão de Sócrates incluída.
Assisti incrédulo à seguinte afirmação por parte de Miguel Macedo, líder parlamentar do PSD: "O PSD não chumbou as medidas do PEC, o PSD chumbou a credibilidade do Governo."
Antes disto, numa nota em inglês para os seus homólogos de Bruxelas, o PSD, entre outras disse: "é preciso atacar a base de apoio de funcionários públicos do PS".
Vi a intervenção na AR de M. Ferreira Leite. Tive vontade de rir, mas não consegui, só conseguia visualizar a austera  Ministra das Finanças de Durão Barroso. Tentei lembrar-me de alguma medida de mérito que ela tenha tomado, de alguma obra que ficasse, de redução do défice, de redução da despesa, etc. Não consegui. Lembrei-me então de quando ela era Ministra da Educação. Definitivamente não consegui sequer esboçar um sorriso.
Então, com muito esforço, tentei lembrar-me de alguma coisa que Cavaco tenha dito para, com a sua magistratura activa, tentar pôr ordem nos rapazolas que estavam a brincar aos governos de um país endividado. E não é que o homem não disse nem fez nada?!?!
Tentei lembrar-me de alguma ideia, medida ou letra de canção a roçar o foleiro mas com epíteto de intervenção, que o PSD tivesse sugerido...nada.
Vi que ninguém quis saber do apoio e aplauso de todas as instituições europeias às medidas constantes do PEC IV, que, como é imposto por estas vão mergulhar o país numa crise ainda pior.
Pensei que Sócrates devia estar mesmo agarrado ao poder, demitindo-se quando a isso não era obrigado, mas sentindo que não lhe davam condições mínimas de estabilidade para continuar a  governar.
Mais tarde, já com muito sono, deu-me para tentar imaginar o que é que PSD e CDS poderiam fazer de diferente, e acordei com Passos Coelho a dizer que já está a pensar aumentar o IVA.
Como é possível brincar assim com o país, principalmente com  um golpe vindo de dentro (Inside Job). Como se não bastasse o maravilhoso sistema em que a União Europeia se deixou amordaçar, em que a agências de rating Fitch, Moody's e Standard and Poor's, baseadas nos Estados Unidos da América (onde havia de ser?) controlam as políticas fiscais, económicas e sociais dos Estados-Membros da União Europeia através da atribuição das notações de crédito.


"Aníbal António Cavaco Silva, agora Presidente, mas primeiro-ministro durante uma década, entre 1985 e 1995, anos em que estavam despejando bilhões através das suas mãos a partir dos fundos estruturais e do desenvolvimento da UE, é um excelente exemplo de um dos melhores políticos de Portugal. Eleito fundamentalmente porque ele é considerado "sério" e "honesto" (em terra de cegos, quem vê é rei), como se isso fosse um motivo para eleger um líder (que só em Portugal, é) e como se a maioria dos restantes políticos (PSD/PS) fossem um bando de sanguessugas e parasitas inúteis (que são), ele é o pai do défice público em Portugal e o campeão de gastos públicos.
A sua "política de betão" foi bem concebida, mas como sempre, mal planeada, o resultado de uma inepta, descoordenada e, às vezes inexistente localização no modelo governativo do departamento do Ordenamento do Território, vergado, como habitualmente, a interesses investidos que sugam o país e seu povo.
Uma grande parte dos fundos da UE foram canalizadas para a construção de pontes e auto-estradas para abrir o país a Lisboa, facilitando o transporte interno e fomentando a construção de parques industriais nas cidades do interior para atrair a grande parte da população que assentava no litoral.
O resultado concreto, foi que as pessoas agora tinham os meios para fugirem do interior e chegar ao litoral ainda mais rápido. Os parques industriais nunca ficaram repletos e as indústrias que foram criadas, em muitos casos já fecharam. Uma grande percentagem do dinheiro dos contribuintes da UE vaporizou em empresas e esquemas fantasmas. Foram comprados Ferraris. Foram encomendados Lamborghini. Maserati. Foram organizadas caçadas de javali em Espanha. Foram remodeladas casas particulares. O Governo e Aníbal Silva ficou a observar, no seu primeiro mandato, enquanto o dinheiro foi desperdiçado. No seu segundo mandato, Aníbal Silva ficou a observar os membros do seu governo a perderem o controle e a participarem. Então, ele tentou desesperadamente distanciar-se do seu próprio partido político. E ele é um dos melhores (...) Depois de Aníbal A. Cavaco da Silva veio o bem-intencionado e humanitário, António Guterres (PS), um excelente Alto Comissário para os Refugiados e um candidato perfeito para Secretário-Geral da ONU, mas um buraco negro em termos de (má) gestão financeira. Ele foi seguido pelo diplomata excelente, mas abominável primeiro-ministro José Barroso (PSD) (agora Presidente da Comissão da EU, "Eu vou ser primeiro-ministro, só que não sei quando") que criou mais problemas com seu discurso do que ele resolveu, passou a batata quente para Pedro Lopes (PSD), que não tinha qualquer hipótese ou capacidade para governar e não viu a armadilha.
Resultando em dois mandatos de José Sócrates; um Ministro do Ambiente competente, que até formou um bom governo de maioria e tentou corajosamente corrigir erros anteriores. Mas foi rapidamente asfixiado por interesses instalados.
Agora, as medidas de austeridade apresentadas por este primeiro-ministro, são o resultado da sua própria inépcia para enfrentar esses interesses, no período que antecedeu a última crise mundial do capitalismo (aquela em que os líderes financeiros do mundo foram buscar três triliões de dólares de um dia para o outro para salvar uma mão cheia de banqueiros irresponsáveis, enquanto nada foi produzido para pagar pensões dignas, programas de saúde ou projectos de educação)."
Timothy Bancroft-Hinc in "Pravda", jornal russo, esta semana, sobre Portugal.


Post Scriptum - Aconselho vivamente o documentário sobre a crise internacional "Inside Job".


quarta-feira, 16 de março de 2011

O rosto da política necessária

Hoje, perdoar-me-ão, vou ser um pouco mais extenso. Os tempos que vivemos, são em simultâneo, difíceis mas empolgantes. O serem difíceis julgo que está à vista de todos. São empolgantes no sentido do debate ideológico que se impõe ou que nos é imposto. Chegou a hora de tomar partido.

Todos os dias nos dizem que acabou o Estado social, o Estado protector, a economia previsível, as certezas absolutas, o emprego para a vida, o trabalho com contrato, a segurança apaziguadora. O mundo pula mais do que avança e está em constante sobressalto (eu sei, foi um trocadilho fácil da letra da música "Pedra Filosofal"). A evolução civilizacional conquistada a pulso no último século está em crise, feita de revoluções, de luta pela liberdade, de combates ideológicos mais ou menos sangrentos. Ainda não se sabe se ganhou o sistema capitalista, do mercado liberal, se o sistema social, do Estado protector. Provavelmente ganharam os dois. Sabe-se quem perdeu, as ditaduras, os imperialismos, o fascismo, o socialismo marxista, leninista e trotskista, os extremos de direita ou de esquerda. A liberdade ganhou e deve ganhar sempre! A liberdade de escolha, a liberdade de voto, a liberdade de expressão. Acontece que a liberdade não é um fim em si mesmo, ela implica responsabilidade, implica que se saiba viver com ela, e não aproveitar-se dela. E isso mesmo decorreu da queda do muro de Berlim, da queda do sistema socialista soviético. A liberdade do capital chamou a si a sua própria liberdade. Assistimos recentemente à falência do sistema capitalista global. Disso que ninguém tenha dúvidas. Se  o fim do socialismo utópico e de Estado se deveu à falta de liberdade individual e privada, a liberdade desregrada e egoísta dos últimos anos de especulação financeira deveria levar ao fim do capitalismo neo-liberal. A diferença reside no conteúdo e não na forma. Infelizmente. O dinheiro é, hoje por hoje, mais importante que o individuo. E é por isso que o sistema capitalista tout-court, desregulado e especulativo não morreu e está mais forte do que nunca. Repare-se que agora uma qualquer agência de notação financeira, elas próprias com grande responsabilidade na crise financeira que posteriormente levou à económica, mantêm os próprios Estados reféns da sua ânsia e ganância. O modelo social europeu caiu pela base à mais mínima probabilidade de alguém poder perder algum dinheiro. E já aqui perguntei como é possível que a crise do sistema neo-liberal e global dê origem ao atestado de óbito do Estado social? A única explicação que encontro é sempre a mesma e passa por falar em dinheiro. 
Aos que me acusam de seguidismo e parcialismo, eu respondo que têm toda a razão, sou seguidista dos meus ideais de esquerda quando se trata de igualdade e liberdade,  parcial o suficiente para sobrepôr o individuo ao capital, de defesa do Estado social e protector, sempre com a noção exacta que são os mercados livres que devem e podem melhor desenvolver a economia e o mundo, mas com regras, que só podem ser ditadas pelo Estado. Isto sim é política...eu já escolhi o meu partido. E vós?

Por contraponto à política, vem a política dos politiqueiros, a chamada politiquice. Este era o momento para se debater a fundo a politica dos ideais, com ideias responsáveis e seguras. Mas não, desde Merkel, a Sarkozy, passando cá no nosso burgo por Cavaco, Passos Coelho e Sócrates, todos resolveram desperdiçar a oportunidade única que vivemos de poder encontrar pontes e pontos de união para o futuro. Quem sabe até encontrando uma solução intermédia que desembocasse num sistema político que aproveitasse o melhor de gregos e troianos.
Mas não. Joga-se à política, foge-se às responsabilidades, brinca-se com o país e com o nosso futuro e dos nossos filhos.
O folhetim do novo PEC é o que faltava para pôr de vez a pedra sobre o túmulo. Se é verdade que o congelamento das pensões mais baixas, é (e para usar uma palavra da moda) do mais rasco que se pode fazer, aliado aos cortes nas outras pensões, bem como à maior desbaratização e precariedade do emprego, então o Estado social bateu mesmo no fundo, ainda por cima com directivas ditadas pela Alemanha, ao arrepio das instituições europeias democraticamente eleitas. Já não nos dirigimos à comissão ou ao parlamento europeus, vamos directamente falar com Merkel. E aí a culpa é de Sócrates e de todos os bonecos que por lá pululam. Passos Coelho queria cozer em lume brando este Governo mais uns meses, só que não contou com o desnorte que por lá se vive, e por querer ou sem querer, culpa de Sócrates ou de Passos Coelho, a crise política está instalada. E Passos Coelho que contava com o desgaste do Governo para chegar à maioria absoluta, vê-se confrontado com um cenário de eleições, que estou convencido, não desejava já.  O PEC vai a votos e o Governo vai cair. Até que enfim...ou não...porque neste momento a direita unida (PSD/CDS) ainda não tem maioria absoluta. Que outra coisa poderá o PSD fazer no poder sem maioria? Vai chamar o FMI? Vai Paulo Portas negociar com Merkel? Ou vai tomar medidas senão iguais, bem piores, a reboque do discurso de todos os governos recém empossados do "nunca pensei que isto estivesse tão mal", ou do "a culpa do governo anterior", etc. O jogo da politiquice de quem deve ser responsável veio para ficar. À falta de ética e de responsabilidade, junta-se a falta de vergonha e de coragem e a ânsia ou a manutenção do poder. O país fica para depois.

E agora para acabar com a politiquice, mais uma vez Cavaco Silva surpreendeu... ou não, ao dizer a seguinte frase ""Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar". Pergunto eu: será que para Cavaco a guerra colonial fooi essencial ao nosso futuro? Será que as missões e as causas serão as mesmas de um regime ditatorial e as de quem foi eleito e vive em liberdade? As palavras brotam da sua boca com a determinação de quem não sabe o que está a ler, com a ignorância de quem não percebe o significado das coisas, ou então é mesmo convicção. Seja como for qualquer delas é muito grave. Vou fazer-me amigo de Cavaco no Facebook, porque ao que parece é lá que ele explica o que verdadeiramente quis dizer. Sem comentários.

Não é de estranhar pois, que os meios e as redes tradicionais estejam em risco, com o surgimento das redes sociais globais, rápidas e abrangentes, quando a política de  ideais é substituída pelo jogo do momento, pelo soluçar do poder e dos boys, que, não se iludam, são de todos os quadrantes e mudam de cor conforme a onda. Os protestos espontâneos a que temos assistido são fruto da politiquice que se vê e da política que não se vê. Mas se nascem sem ideologia, só a ideologia os fará alcançar uma meta. É o nosso sistema democrático que o exige, e aí temos que  votar nos rostos que nos representam ou não. Talvez por tudo isto se explique a abstenção. Mas ninguém devia ser abstencionista, que para todos os efeitos não é a mesma coisa. Talvez por isso em França a extrema direita esteja a ganhar terreno. Temo o pior. É chegada a hora de escolher. Mas sempre pela liberdade...