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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Sem diálogo, só censura

quinta-feira, 22 de novembro de 2018 0

Quando a democracia amolece, e surgem alguns focos de corrupção, o caminho está aberto para a proliferação dos populismos. Os populistas usam o medo, exploram o ódio e as notícias falsas (‘fake news’) para os seus fins eleitoralistas e têm nas redes sociais um amplo campo de divulgação, bem assim como nos jornalistas avençados protegidos por editores e proprietários cujo único objetivo é o lucro e não dar notícias. Constroem uma narrativa anti-sistema apoiada num discurso intolerante e nacionalista, aproveitando momentos de fragilidade social nos respetivos países. E, muitas vezes sendo estranhos à política, dela se servem para apregoar que dela nunca viveram. Esquecendo-se que provêm da sociedade civil, tal como os políticos. A crise de valores está no seu apogeu, e cresceu com os devaneios do neoliberalismo desregulado. O sentimento de injustiça de lá para cá aumentou quando chamaram muitos a pagar a ganância de uns poucos. Com o aumento das desigualdades e do desemprego que a crise gerou, aliadas à moratória de ataque aos próprios estados soberanos instalou-se nos povos um profundo sentimento de insegurança, injustiça e impotência. Quando os líderes entregaram aos especuladores a iniciativa de ‘castigar’ os estados e as pessoas pelos erros que aqueles tinham cometido e pelo visto continuam a cometer, o espartilho apertou-se ainda mais.
As falsas promessas dizem ao povo o que ele quer ouvir, mesmo que o que se diga seja xenófobo, racista e intolerante. Assim é com Trump, que apesar de populista e extremista ainda não é um ditador. Assim é com Bolsonaro, que ainda não sabemos se o irá ser, apesar de o ter dito. O voto do Brasil não foi em Bolsonaro na sua maioria, foi, com a ajuda das ‘fake news’ pagas por elitistas que se movem no desprezo pela ética, um voto contra o sistema e contra o PT de Haddad. Votar contra e não a favor é sempre um exercício perigoso e espero que os brasileiros não se venham a arrepender.
Mas que não restem dúvidas, se a opção é por uma democracia com mais ou menos defeitos, mas democracia, ou por um laivo sequer de uma possível ditadura fascista, a minha caneta estará sempre do lado da democracia, combatendo seja quem for que pense o contrário. E não, não é tolerável que se aceite quem pense o contrário, apesar de o poderem fazer, como só o pode fazer quem vive em democracia.
Venham de onde vierem, da Venezuela, do Brasil, da Turquia ou da Coreia do Norte. Não há diálogo possível com extremistas, ditadores, xenófobos ou racistas. Mas deve haver combate onde os próprios falham. Na discussão da falácia dos seus argumentos. Sem medo ou hesitação, porque há por aí muitos ‘bolsonaros’ saudosistas e conservadores que à míngua de conhecimentos valorizam a sua percepção e ignoram os factos.


Publicado in "A Voz de Chaves", em 15 de novembro de 2018

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Trumpalhada

sexta-feira, 11 de novembro de 2016 0
Trump venceu as eleições americanas... Este título há uns anos faria rir muita gente. Hoje ninguém se ri. A não ser os idiotas que nele votaram. Não há volta a dar. Só podem ser idiotas, para não dizer outra coisa. Alguém que diz que as mulheres devem ser tratadas como merda, que diz que vai erguer um muro na fronteira com o México, que diz que vai proibir a entrada a mais imigrantes, especialmente os muçulmanos, que afirmou que se fosse eleito mandaria prender a sua oponente, que diz que o aquecimento global é uma coisa inventada pela China, que é xenófobo, racista, populista, fascista e misógino, alguém que diz o que diz e pensa assim não pode ser eleito para coisa nenhuma, quanto mais para o cargo mais poderoso do mundo. Quem apoia e vota numa pessoa assim não pode merecer respeito. Ou é completamente ignorante, tal como Trump, ou não é, e então é como ele. Milhões de americanos são assim, ignorantes, quero crer.
Importa agora, chegar ao fundo da questão. Porque é que isto aconteceu? E não vale a pena dizerem que aquilo foi tudo show off de campanha. Os discursos do homem vão ser sempre um murro no estômago. E vamos vê-lo e ouvi-lo inúmeras vezes.
O fenómeno, nestas eleições, não era apenas Trump. Era também Clinton. Não poderia haver escolha mais falhada para uma oposição a Trump do que um dos maiores símbolos de tudo o que a maioria dos norte-americanos queria recusar.
A verdadeira razão para a eleição de Trump, é a mesma que surge na Europa. É a ruptura entre a política e as sociedades ocidentais, resultado da longa crise económica e financeira e da globalização que deixa grande parte dos cidadãos de fora.
A insegurança e o medo, as desigualdades, o desemprego, a perda de rendimento, a austeridade, o endividamento e a dívida. A globalização que tinha a virtude de aproximar pessoas e mercados, rapidamente se transformou e subverteu. Desregulou-se o capital e a economia passou a mandar na política. Os mercados orientais entraram-nos pela porta adentro, fazendo uma concorrência impossível de acompanhar pelas nossas empresas. O grande capital financeiro das grandes empresas passou a recrutar no oriente a sua mão de obra, mais barata para minimizar custos e aumentar lucros. O emprego ficou aqui mais caro e a consequência foi o aumento brutal do desemprego. A crise financeira, causada pela total desregulação do mercado rapidamente tomou conta dos estados e dos países.
As pessoas assustaram-se e maltratadas pela globalização estão disponíveis para ouvir e apoiar quem lhes prometa mudança. Com ou sem princípios. Com ou sem conhecimento. O problema é que essa mudança não vem de quem deve vir, num sistema político falhado e paralisado, Nos EUA como aqui.
Usando a demagogia, Trump conseguiu dar uma resposta, ainda que assente em falsidades, aos anseios de milhões. A eleição de Trump é mesmo uma mudança histórica. A sua chegada à Casa Branca criará um clima insuportável de tensão racial no país. Um homem que não acredita no Estado de Direito terá um poder decisivo na constituição do Supremo. Os muçulmanos não esquecerão nada do que Trump disse e os norte-americanos voltarão a ser insidiosos na luta contra o terrorismo. O combate às alterações climáticas recuará e o preço será pago pelos nosso filhos e netos. O mundo ficará ainda mais perigoso porque Trump não acredita na democracia, apesar de ser um filho da globalização.
O mundo está a caminhar para aqui. Líderes populistas e de pensamento fascista, que conseguem capitalizar por essa via o descontentamento popular, transformando-o em poder pessoal anti-sistema.
Vivem-se tempos negros, e se não aparecerem líderes capazes de dar resposta ao ímpeto de mudança que as pessoas desamparadas exigem, que não consigam serenar e diminuir as desigualdades, que não lhes inspirem confiança, que não usem o sistema a seu favor, mas a favor dos votantes, temo o pior... Não sei se depois de Trump ainda iremos a tempo...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Terrorismo tablóide

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016 0
O terrorismo é a forma mais cobarde de se fazer a guerra. Até porque essa guerra é sempre ilegítima, se que alguma é legítima. Mas a forma como o jornalismo de hoje tenta influenciar a opinião pública roça a indecência. Os media, na sua maioria privados, respondem tão só aos números das tiragens, das vendas e dos lucros. Os pseudo-jornalistas que grassam nessa amálgama sem escrúpulos são capazes de tudo e do seu contrário sem qualquer crivo jornalístico ou de interesse público. As capas do Correio da Manhã são o exemplo acabado desse jornalismo de sarjeta. E o que é deveras preocupante é que seja o jornal (tablóide) mais vendido em Portugal. O que é deveras preocupante é que uma grande parte dos portugueses pense e diga convictamente o que esse e outros tablóides reproduzem. Assente no populismo, a sua agenda ideológica tem como alvo preferencial tudo o que seja público, com uma matriz de fachada sensacionalista. O discurso de extrema direita de ataque ao poder político, aos imigrantes, xenófobo e racista, é capaz de triturar seja quem for, em nome do status quo e da manutenção dos seus interesses económicos, num tempo em que se tenta, ou tentou, reduzir o Estado a uma mera função de garantia de segurança pública. O populismo tablóide exorta o definhar do Estado social, assim como se alimenta de escândalos julgados na praça pública. Adora Marcelo Rebelo de Sousa a comer tudo o que puder em qualquer balcão de um qualquer café do país. Nunca procura a verdade dos factos, porque o factual pode não servir os seus interesses, e não se coíbe de dar a sua própria opinião, ajuizando e influenciando antes do julgamento feito.
As frases que se vão ouvindo na rua 'Qualquer dia somos todos muçulmanos', 'ajudam estes terroristas e não ajudam os nossos que passam fome', 'não há nenhum político honesto', 'os apoios sociais só servem para os malandros não trabalharem', etc., são a reprodução fiel que o populismo tablóide explora e reproduz sem qualquer pudor. Apelidam de censura qualquer laivo de limitação da sua ação, mesmo que decidida por um juiz, mesmo que a sua ação viole as leis que ainda separam a liberdade de expressão da libertinagem de atentado aos direitos das pessoas.
Já aqui dei o exemplo do Correio da Manhã, mas outros há, aqui e lá fora. O jornal A Bola e alguns canais televisivos são desses exemplos, mais controlados alguns, mas sempre com os olhos postos na grande nação benfiquista, como mais recentemente, não se coibindo de pôr em causa a seriedade e o profissionalismo de Sérgio Conceição. A lama do futebol também é um espelho do país. Como em tudo.

Lá por fora, o tão aclamado Charlie Hebdo, como tão desconhecido que era, publicou um 'cartoon' onde prevê que Aylan Kurdi, o menino sírio de dois anos encontrado morto numa praia turca depois de tentar chegar à Europa com a família, iria tornar-se um abusador de mulheres quando crescesse. O 'cartoon' surge após revelações de agressões sexuais levadas a cabo por grupos de migrantes na noite de ano novo na cidade alemã de Colónia. E ilustra um Aylan, já adulto, com ar depravado, a correr atrás de uma mulher com a língua de fora e os braços esticados. Eis um exemplo de libertinagem xenófoba, que nada tem a ver com liberdade de expressão, mas tão só e unicamente procura o maior lucro possível à custa de passar por cima de qualquer princípio ou direito. Assim se tem feito na Europa dos últimos anos. Urge parar para pensar que sociedade queremos e que valores iremos transmitir aos nosso filhos para que não tenham que fugir ao mínimo vislumbre de uma pessoa que seja suspeita de poder ser muçulmana. O terrorismo tem várias faces e esta não é a melhor maneira de lhe responder. Tornar cada um de nós num potencial xenófobo ou racista. A não ser que isso já nos esteja no sangue. 


sábado, 11 de outubro de 2014

Trivial meu caro filtro

sábado, 11 de outubro de 2014 0
O mundo digital das redes sociais, dos dotcom, links e www põe-nos à mercê de uma avalanche global de informação que insta ao exercício de uma filtragem cerebral exaustiva. A catarata noticiosa leva à formação de milhares de opiniões sobre tudo e sobre todos. Em todos os assuntos é possível comentar com maior ou menor grau de conhecimento. Até aqui nada a apontar. O problema surge quando a notícia serve interesses próprios de marketing popular. E a maré é uma torrente que arrasta multidões. A sensação e o popular atraem cada vez mais a ignorância feita de chorrilho e armazenada por arrastão. Em nome do lucro vale tudo. Invectivar, sugerir ou suspeitar são o rastilho que alimenta a chama. O 'gosto' e o comentário mais partilhado na rede proporciona tornar real algo que não passa de logro ou esquema paparazzi. Mas também muitas das vezes ajuda a expor o ridículo. Deparei-me no dia de hoje com variadas 'notícias' que me levaram às lágrimas (ainda não sei se de riso ou de choro). Riam ou chorem comigo:
O título da notícia é:

Presidente da junta de Fernão Ferro quer ser tratado por "senhor presidente"


O aviso é em tom sério e surge na circular interna dirigida aos funcionários da Junta de Fernão Ferro (Seixal) pelo presidente que deixou a freguesia em polvorosa. "O tratamento por 'tu' acabou, principalmente à frente de terceiros", sublinhou Carlos Reis, eleito pela CDU, depois de alertar: "Sempre que se dirijam à minha pessoa, que o façam com o normal dever de correção, ou seja, com o recurso ao tratamento 'Sr. Presidente' ou, na pior das hipóteses, 'Presidente'.

Lida a notícia na íntegra e 150 comentários depois, defensores e detractores exploram toda uma teoria (sempre muito eloquente como é apanágio dos comentários neste tipo de rede) acerca da razão ou crítica ao dito presidente, sem que ninguém tenha de facto conhecimento de causa. O título é do Diário de Notícias e alimenta o tipo popularucho que acima referi. O tipo de notícia que há 20 anos não era notícia...

Mais uma:

Sabe quanta água pode poupar se urinar na banheira de manhã?

Dois estudantes da universidade East Anglia, no Reino Unido, estão a levar a cabo um estudo que pode ajudar a poupar muita água. A única coisa que pedem aos colegas é que estes façam a primeira urina da manhã no chuveiro, enquanto tomam banho.
Nesta os comentários facebookianos são um misto de riso e de grande consternação. Os sentimentos que uma notícia desta monta podem gerar são um case study sobre a sociedade tipo moderna que juramos e queremos formar.

Outra:

Engravida de stripper anão e é obrigada a contar ao marido

A tradição manda que seja organizada uma despedida de solteiro quando alguém se casa. Neste caso, uma mulher espanhola foi celebrar a última noite de solteira e acabou por se envolver com um stripper anão. Casou-se e engravidou, mas o filho era do stripper. No hospital teve de revelar o segredo ao marido que até à data pensava que o filho era seu, revela o Daily Mail.
Aqui os comentários vão da mais absoluta ignorância até à mais cruel xenofobia...

Há ainda vários anúncios, entre os quais aparece uma solução mágica que vende dentes brancos. Os comentários são mais uma vez hilariantes. Desde conselhos à utilização de outros produtos, como o cillit bang, jacto de areia ou mesmo gasolina ao comentário racista com piadas estúpidas referentes aos dentes das pessoas de pele negra. Podem imaginar...

Os media são cada vez mais responsáveis por uma solução que não passe pelo sensacionalismo ou pelo populismo. E devem cada vez  mais ser responsabilizados pela desinformação que praticam em nome das vendas geradoras de lucro a qualquer preço e que cada vez mais tem sido o mote da comunicação social. Não me causa pois qualquer admiração que o jornal mais vendido em Portugal seja o Correio da Manhã e a estação televisiva com maior audiência seja a TVI da casa dos degredos... O filtro cerebral é cada vez mais uma emergência aos nossos olhos.

P.S.- Entretanto hoje foram conhecidos os contemplados com o prémio Nobel da Paz. Vale a pena tentar perceber porquê. Ou não. Depende do filtro e do título da notícia.



segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O assalto dos idiotas

segunda-feira, 22 de setembro de 2014 0
Cresce um novo populismo na Europa e em Portugal. Hollande foi eleito nessa esteira, prometendo romper com o status quo maioritário. O seu exemplo de expectativas defraudadas e total fracasso na execução devia fazer pensar quem se alvitra numa lógica de mudança. Falar claro e para o povo não implica necessariamente ser populista ou demagógico. Marinho e Pinto fala claro e para o povo, mas as suas tiradas idiotas não conseguem esconder a sede do pote.
Noutra linha, Seguro tentou o mesmo com a sua proposta de revisão da lei eleitoral. Limitando-se a reduzir o número de deputados não consegue explicar mais nada que não seja a mudança da representatividade na lógica do deputado vizinho que supostamente temos obrigação de conhecer, com as nefastas consequências que se conhecem para os partidos mais pequenos. Para além das incompatibilidades: o facto de quase um terço da bancada socialista na AR ser advogado ou jurista, proporção igual ao total de deputados, logo determinou a sua não inclusão na proposta. A proposta apresentada agora em plena campanha das primárias é o indisfarçável sinal do desespero eleitoralista. Após três anos de auto-anulação, qual é a pressa agora?
Também Passos Coelho foi eleito nessa espiral demagógica. As suas promessas de campanha, misturadas com a ardil cilada ao governo socialista e o tiro ao Sócrates, proporcionaram um escalar demagógico de assalto ao poder. Portas é o exemplo máximo do populismo de feira. E assim lá chegaram. O que se passou depois é conhecido. Os extremos costumam crescer em tempos difíceis. As pessoas agarram-se a qualquer coisa que lhes dê esperança e os populistas grassam nesse campo. A história está cheia de exemplos. Responsabilidade e bom senso são por estes dias valores em franco retrocesso. Os expedientes contorcionistas de poder são até capazes de contornar uma qualquer constituição ou estatutos. Todo o cuidado é pouco, quando um qualquer idiota tem palco para dizer o que o povo mal tratado quer ouvir...

quarta-feira, 6 de março de 2013

Morreu um ditador

quarta-feira, 6 de março de 2013 1
Morreu Hugo Chávez. Morreu um ditador. Apesar de nutrir alguma simpatia pelo homem que sempre disse de Bush Jr. o que ninguém tinha coragem para dizer, a verdade é que deixou o seu país na pobreza, mesmo nacionalizando a maioria dos factores de produção, com especial destaque para o petróleo. A sua veia pouco democrática de poder absoluto, de controlo do Estado e de plebiscitos duvidosos é um factor que não pode nem deve ser ignorado. Morreu um ditador. Que usou a propaganda e o populismo como todos os ditadores o fizeram no passado. Aproveitando as crises, económica e financeira, do capitalismo (de mercado e liberal) e dos valores da democracia.
Assim sucedeu, como a história nos faz questão sempre de lembrar, há quase um século. Na Alemanha, na Itália e em Portugal. Em Espanha e na América Latina. Na África e na Ásia. Na URSS.
Na ressaca da I Grande Guerra, o desemprego e a pobreza eram os principais problemas da Europa. Na Alemanha o desemprego atinge os 33% nos princípios dos anos 30. As reparações de guerra e o tratado de paz de Versalhes com perda de território e de população é visto como uma humilhação. As convulsões antidemocráticas e contra a I República de Weimar fazem proliferar os grupos paramilitares e extremistas, entre eles o nazi da Baviera. A onda antidemocrática e antirrepublicana varre o país. A desvalorização do marco e a hiperinflação transformam burgueses em mendigos e especuladores em milionários. A austeridade esmagava o povo e protegia as classes mais abastadas. Entretanto dá-se o crash da Bolsa de Nova Iorque em 1929, o crédito fechou as torneiras e a recessão agrava o que já era grave. Um jovem aproveita a onda e munido de propaganda e populismo promete fazer da Alemanha um império (Reich). Esse jovem chamava-se Adolf Hitler.
À semelhança da Alemanha, na Itália as críticas aos partidos, ao funcionamento do parlamento e aos deputados, ao próprio regime democrático, a crise económica, a crise de valores e de referências são capitalizadas por um orador capaz de inflamar e influenciar as massas, levá-las ao delírio. Dotado de um grande sentido cénico aparece Mussolini.
Em Portugal a I República que chegou a ter três presidentes no mesmo dia está em crise de identidade. De valores. A crise económica e o desemprego levam a um nível nunca visto de emigração. A propaganda fez um homem. Salazar. O resto da história já sabemos.
Nos EUA um homem segue as teorias keynesianas de luta contra a crise. Investimento público, criação do sistema de segurança social, foi lançada a génese do Estado-providência, do Estado social. Foi o New Deal de Roosevelt. A seguir à II Grande Guerra os EUA conheceram uma das épocas de maior prosperidade da sua história. Até Reagan e a mudança de políticas. Já agora, reparem na diferença entre as políticas seguidas na Europa e as dos EUA. Há quase um século e agora. Obama já começou em força o investimento público. A Alemanha começa a reforçar o seu Estado social, enquanto impõe políticas de austeridade à Europa. O diktat de Versalhes é agora o diktat da Troika. Porque a Alemanha jurou nunca mais ter dentro de portas o hiperinflacionismo que a amordaçou antes da II Grande Guerra. As semelhanças com o passado entre esta Europa e aquela de princípios do século XX são assustadoras e muito preocupantes. É bom que os políticos saibam ler os sinais vindos de todo o lado, para já com maior alarme, de Itália.
A propaganda e o populismo que já se pode ver por essa Europa fora, v.g. Grillo em Itália, é um perigo à espreita. O défice de confiança na política e a austeridade castradora de direitos, liberdades e garantias, aliadas à falta de resposta dos líderes em funções, podem levar a uma onda de independentes dispostos a cavalgar a onda da pobreza e da crise. Está nas mãos de quem elege escolher com sabedoria. Para não aparecerem mais grilos falantes a bloquear democracias. E, sobretudo, para que a história não se repita.

domingo, 4 de dezembro de 2011

A Europa da austeridade

domingo, 4 de dezembro de 2011 0
Mais um Conselho Europeu marcado para o próximo fim de semana. Desta vez, e após as recentes declarações de Merkel estamos perante a iminência de uma união fiscal total.
Portugal teria muito mais a ganhar com a emissão imediata dos 'eurobonds' ou com a transformação do BCE num banco central normal. Ambas as medidas ajudariam num mais rápido e eficaz combate à crise da dívida soberana. Enquanto ela for soberana. A alavancagem daí resultante permitiria que a nossa, como outras dívidas pudessem ser protegidas dos ataques externos dos mercados mais pessimistas e impacientes, por assim dizer. A emissão de moeda por um banco central europeu, ou a emissão de títulos de dívida subscritos por todos os membros do euro permitiria refrear qualquer especulação e credibilizar uma moeda catatónica, vítima de agiotas e da falta de coragem dos líderes medíocres que era suposto protegerem-na.
O BCE teme a inflação e os tratados actuais não permitem que salve um país membro, reduzindo a sua actuação à compra de dívida nos mercados secundários, e a Alemanha teme a bancarrota e a sistematização da falta de responsabilidade dos países prevaricadores. Assim sendo, propõe a união fiscal, e a alteração dos tratados, em troca de castigar com mais austeridade os países que já têm a corda na garganta. Pode ser a solução a longo prazo, pode ser que nos consiga manter no euro, trará mais integração europeia, mas a violência a que nos sujeita nos próximos anos, e que não serão 3 ou 4, causará convulsões de resultado imprevisível, assim como a necessária perda de soberania e a redução do Estado social, na saúde, justiça e educação a meros serviços de gestão, sem qualidade, sem profissionais e sem motivação. Tudo isto num contexto de desemprego e recessão endémica.
Passos Coelho que não tem ideia nenhuma sobre a Europa, faz a vénia a Merkel, como um súbdito bem comportado. Aliás, convém lembrar a sua recente entrevista, em que afirma haver 2 mil milhões de euros para injectar na economia. Como? Não sabemos. Será esta a folga orçamental de que falava Seguro? Será este o dinheiro tirado aos funcionários públicos e aos pensionistas, que agora vai ser dado a empresários para gastar, ninguém sabe como? É que os pensionistas e os funcionários públicos utilizam o dinheiro em consumo, qualquer economista sabe isso, e necessariamente ele irá parar ao comércio e à indústria. Assim, ficamos sem saber. Mas sabemos como funcionam os empréstimos a empresários menos escrupulosos. À semelhança da Grécia e da Itália, ainda vou ver o tecnocrata Vítor Gaspar a substituir Passos Coelho como Primeiro-Ministro, sem recurso a eleições, para garantir que as medidas liberais são bem aplicadas e que a austeridade é só para alguns. Passos Coelho na mesma entrevista já nos avisou que vem aí mais. Mais meia-hora de trabalho escravo, mais desigualdades, mais cortes onde não se deve, mais populismo em que este governo é doutorado, ao estilo da rábula das gravatas, da Vespa que o Ministro da Segurança Social trocou por um Audi de 86 mil euros, do amarfanhar do fundo de pensões da banca, numa engenharia financeira de controlo do défice que tanto criticaram no passado mais recente e dos vôos em económica que João Jardim manda às malvas do alto da sua gabarolice. Estou farto...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O terror europeu

sexta-feira, 29 de julho de 2011 0
O terrorismo chegou à Europa, no mais insuspeito dos países, a Noruega.aqui tinha alertado (a minha mania da premonição) para o perigo dos populismos e da falta de liderança, a que a resposta natural são os extremismos, neste caso de direita que podem levar a situações como as que se viram no passado dia 22 em Oslo. A UE corre o risco de desagregação e com ela o perigo de guerras que a história nos ensinou que são cíclicas. Num continente de ódios e diferenças, de etnias várias e de séculos de desavenças e lutas, não é fácil o caminho para uma Federação Europeia. Aliás, o caminho mais fácil no momento é deitar por terra mais de 50 anos de integração. Tudo, sempre tudo, girou à volta de poder, território e recursos. O futuro não será diferente e os lideres actuais não sabem e não querem prevê-lo. Os extremos posicionam-se e a turbe de excluídos está aí, disposta a levá-los ao poder. Veja-se a última proposta na UE. Os países que necessitem de um próximo resgate serão obrigados a abdicar de uma parcela de soberania... mais ainda da que já abdicaram com o Tratado de Lisboa e com os próprios resgates. A fazer lembrar a União Soviética de Brejnev. Cuidado com o que se deseja, pois pode estourar nas mãos. A única via de perda de soberania, será a da constituição de uma federação europeia, mas também aí os passos não podem ser maiores que as pernas. O respeito pela individualidade de cada povo e de cada pessoa estão na base da fundação europeia. E isso é o que podemos perder. Como na Noruega...

Por cá, os exemplos começam a surgir, num país de brandos costumes, onde secretas, espiões e empresas privadas tipo Ongoing não eram misturadas no mesmo saco. Os jornalistas até podiam ser alvo de pressões por parte do Governo, mas não o seu contrário, tudo por causa de uma nomeação para Secretário de Estado.

A Moody's não baixa a notação da dívida americana, quando esta está prestes a atingir o default... porque será? Prevejo uma crise ainda maior no espaço de dois anos e mais uma vez a reboque dos Estados Unidos. Espero que a UE tenha resolvido os seus problemas até lá, porque se assim não acontecer algo de muito grave nos espera...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Europa populista

sexta-feira, 17 de junho de 2011 0
A crise das dívidas soberanas da Europa – é curioso e tem piada chamar-se soberana à dívida e não aos países – desmascarou toda a farsa que esteve na origem da criação da moeda única (o Euro). Resumidamente, prometeu-se o enriquecimento súbito acompanhando o consequente desenvolvimento exponencial, uma moeda estável e taxas de juro sempre baixas, aumento de competividade e a possibilidade da conquista de mercados internacionais. O BCE garantiria a estabilidade dos preços e o famoso pacto de estabilidade impunha a regra dos 3% de máximo autorizado de défice público em relação ao PIB. Tudo isto, desacompanhado de um mecanismo de resolução de crises, confiando no princípio naif de que não há incumprimento nem resgate, deixando escancarada a porta a uma possível crise, que sem qualquer gestão ou controlo se tornaria incontrolável. Alie-se a isto a falta de uma política fiscal em comum e desequilíbrios macro económicos mais que evidentes entre os vários membros, mais um sistema bancário desregulado e temos nas mãos uma bolha prestes a rebentar.

O que começou por ser um problema dos privados, bancos e seguradoras - primeiro nos E.U.A. e que depois se alastrou à zona Euro, por tabela globalizada - rapidamente se transformou num problema dos Estados. A primeira resposta da UE para a crise foi o ‘salve-se quem puder’. Cada um resgataria os seus próprios bancos (BPN e BPP no caso português). Mais tarde, a segunda resposta, austeridade. Se tivessem criado o tal mecanismo de resgate para o sistema financeiro comum, a UE conseguiria limitar os danos aos privados e centrar-se na única crise orçamental que tinha pela frente: a Grécia. O principal erro foi considerar-se a dívida pública excessiva como principal problema, em vez de se ir ao cerne da questão, ou seja, os bancos insolventes e desregulados que estiveram na origem dessa crise. Veja-se como no plano da Troika para Portugal, 1/3 do dinheiro que nos vão emprestar servirá para recapitalizar o sistema bancário. Enquanto não se separar a dívida nacional do sistema financeiro, a crise europeia manter-se-á até o default em série dos países membros se tornar incontornável. Se não se reconhecer isto de uma vez por todas, se não se disser aos privados que o risco é por conta deles, se não se regular e reordenar o sistema bancário e financeiro, então a união monetária está condenada ao fracasso. Pelo menos em relação aos mais pequenos, aliás como é normal.

As reacções à austeridade estão aí, grupos anárquicos, extremistas e revolucionários. Acampamentos de protesto. Movimentos nas redes sociais e afins. Corrupção na política. E depois... violência, racismo, xenofobia e populismo, sobretudo populismo. Por toda a Europa podemos assistir a este tipo de movimentos. E por toda a Europa a extrema direita ganha adeptos e deputados. O populismo é a arma de mais fácil arremesso como resposta ao dramatismo actual, ‘o medo colectivo’, ‘a nossa protecção’, ‘a invasão da nossa terra’. A modernidade actual, consumista e egoísta, é intrinsecamente antidemocrática. Os grandes grupos de interesses pessoais que emergem na cena política recorrem frequentemente ao populismo, revelando uma nítida impaciência em relação à democracia, que exige consenso e compromisso. O populismo exige um bode expiatório. A suspensão do Acordo de Schengen na Dinamarca, na Itália de Berlusconi o ‘inimigo’ são os juízes, os comunistas e os imigrantes refugiados africanos que se deixam morrer no mar alto, para a Liga do Norte são os habitantes preguiçosos do sul, para a direita húngara coligada com a extrema direita são os ciganos e os intelectuais, para a direita francesa de Sarkozy e Le Pen são os ciganos, os imigrantes e os jovens suburbanos, na Escócia, na Bélgica e na Espanha temos os separatistas...

Desde o nazismo à Jugoslávia não faltam exemplos no século XX... A Nova Ordem Mundial vai nascer ainda neste século. Temo que a sua génese possa ser muito violenta.

 
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